3 de Fevereiro de 2010

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Um ponto. Escrevo um ponto no primeiro lugar que precisa de palavras. Desenho um ponto, assim, no lugar onde se deve escrever o título, no lugar que aspira simbolizar a essência do texto que se segue, no lugar que é a alavanca para a curiosidade, a semelhança, a aproximação ao outro, a coerência com quem escreve. Desenho um ponto no primeiro espaço que tenho de preencher porque o seu vazio, a sua ausência, o seu ainda nada, me incomoda, me irrequieta. Queria escrever sem ter de pensar nisso: no título. Despejar as emoções como sacos cheios de tudo, sem ter depois de separar cada pedaço, sem ter de o catalogar, estereotipar, sem ter de lhe dar imperativamente um sentido. As emoções são isso: o tudo e o nada, quente e fogo, a urgência derradeira e, simultâneamente, no segundo seguinte, ou no minuto, ou dez minutos mais à frente, ou um gesto mais adiante, ou uma palavra a mais dita, a calma, a indiferença, o quase não sentir. Queria sentar-me, aqui, e ser capaz de começar de uma ponta das emoções e terminar só na outra, quando já estivesse satisfeita da minha análise, ciente de ter descrito tudo ao mínimo detalhe, de não me ter escapado nada – nenhuma emoção importante, ou não – e de estar saciada de mim, saciada daquilo que somos, sem palavras ainda por escrever. Encontrar uma lógica para as emoções, ou simplesmente não encontrar lógica nenhuma e nem sequer me importar com isso. Ter capacidade para mostrar que o interior humano é tão vasto e tão genuinamente cheio de sentimentos e emoções contraditórias, sem sentir culpa pela ilógica que possa transmitir. O caos não é demência, nem tristeza, nem doença. O caos é estar vivo. É sentir com intensidade, viver de peito aberto, ter esperança, tentar compreender a imensa capacidade humana de sentir os mais diversos sentimentos e emoções. O caos é olhar para dentro e não mentir sobre o que se vê: a nós próprios. E não ter vergonha de o mostrar. Sobretudo, queria escrever sem ter de me preocupar com o título. Não é o caos - o seu sentido - que me preocupa. Não é a coerência eventualmente perdida. É o título. Este factor que, na maior parte das vezes, descredibiliza o conteúdo, que joga as emoções contra a parede e lhes grita, com um ar altivo e arrogante: “Enquanto não decidires um título decente, não és nada com sentido!” Hoje, especialmente, apenas porque sim, apenas porque me apetece, apenas porque quero, apenas porque preciso, apenas porque sou eu que decido, um ponto. Um ponto que poderá ser um ponto de luz, ou um descuido de tinta que calhou ali, ou um tropeção no teclado que o fez aparecer ali, ou um ponto negro no meu nariz, ou um ponto indicador de onde deverá depois ser escrito o título do texto. Ou não. Talvez não seja nada disso. Talvez seja apenas um ponto que poderá ser o ponto final de um assunto. Ou de uma fase, de uma etapa.

21 de Abril de 2009

Vidas cruzadas [excertos de emoções agúdas que, ao mesmo tempo que nos aceleram, agonizam connosco]

Detenho o meu olhar na ponta dos teus dedos, como se eles fossem uma orquestra de sentidos e de oportunidades que me ditasse as regras de todos os meus caminhos. Detenho o meu olhar na borda perfeita dos teus lábios, como se eles pudessem devolver-me, ou retirar-me, a coragem, a força, o sentido. Detenho o meu olhar no círculo perfeito da tua retina, no abrir e fechar das pálpebras redondas, do esgar lento ou abrupto do sobrolho, como se pudessem ser o mapa que, inevitavelmente, me guia; que serve de ponta de lança para as minhas reacções, para os meus sentimentos, para as minhas dúvidas e inseguranças. Detenho-o. Detenho-me. Sou a personificação da Senhora Expectativa e essa minha vulnerabilidade não te incomoda: é, pelo contrário, o trampolim egoísta que te impulsiona a agir com a certeza de que tudo poderá ser dito, ou escolhido, porque o meu olhar manter-se-á, independentemente disso, na tua direcção.
[Chove na rua. Gabardinas e guarda-chuvas empoleirados em entradas de restaurantes, de cafés, de esqueletos que circundam por aqui. Conversas serenas, mantidas entre uma garfada e outra, com metade dos olhos no rosto do outro e a metade restante no pedaço de carne que se encosta ao bocado de arroz, ao bocado de carne dos lábios, às entranhas húmidas dos corpos. Chove na rua. Chove, aqui, no pedaço de sal que quase me cai dos olhos.]
«A vida é um jogo» – dizes-me tu nas entrelinhas de tudo o que me dizes. Os teus olhos não fitam os meus sem o tórrido sentido de ironia crispado pelo meio das pestanas, como fogo que me é lançado pelos meus olhos adentro, como tochas inundadas de álcool que flamejam violentamente entre nós os dois, como se a distância e a incapacidade de a ultrapassar pudesse queimar-me o corpo todo, por dentro, com esta revolta medonha e esta frustração impotente de ter os lábios cosidos.
[Não estamos sozinhos.]
«A vida é um capricho» – dizes-me tu nos silêncios de tudo o que ages. Um capricho medonho, com cheiro falso a liberdade que tudo tira dos outros, sem a menor noção disso mesmo, sem qualquer preocupação em respeitar as vontades e as necessidades de permanência, de sentir, de ser. Um capricho egoísta que só reconhece a sua necessidade, que se ri às gargalhadas das fragilidades dos outros, que nem sequer se esforça por olhá-las de frente, que não sente, que não chora, que não tenta agradar, que não procura tranquilizar – que não sente remorsos. Detenho o meu olhar no teu olhar: esse olhar redondo, silencioso, como se todo ele estivesse cheio de raiva, cheio de questão de ser frio e seco e morto por dentro. Morto, por dentro.
Enquanto detenho os meus olhos em tudo o que és tu, as palavras do que dizes provocam este eco gritante dentro do meu cérebro e cada segundo parece ser muito mais do que isso e cada silêncio, entre cada palavra, parece ser muito mais do que silêncio. Não vês, cego no teu capricho, que os meus olhos são luzes de fogo à tua frente, iluminadas pela paixão que se sentou sobre as rochas do meu peito e que vai molhando os pés, distraída, a olhar as nuvens e o sol, no meu estômago. De cada vez que as tuas palavras resvalam secas e surdas, o sol desaparece por trás das nuvens e uma onda forte de frio fá-la tremer tanto que toda eu me quedo nesta agonia de sentir o estômago turvo com os pés apressados dela que teimam sair de mim e bater violentamente sobre o meu peito. De cada vez que batem sobre o meu peito, não consigo respirar. Fico paralisada. Fico paralisada a vê-la. Fico paralisada a sentir a dor. Fico paralisada ao olhar para ti.
[Não estamos sozinhos. Chove lá fora. Gabardinas e guarda-chuvas empoleirados por todo o lado. Corpos ocupados. Conversas casuais mantidas durante o jantar. A nossa mesa está vazia, servindo apenas de apoio aos teus braços cruzados, cerrados sobre ti mesmo, incapazes de me deixar entrar nesse abrigo quente onde queres ficar sozinho.]
Detenho o meu olhar na ponta dos teus dedos, como se eles fossem uma orquestra de sentidos e de oportunidades que me ditasse as regras de todos os meus caminhos. A ponta dos teus dedos. Os teus lábios. O teu olhar. Detenho-os. Detenho-me. Respiro fundo. Cerro os maxilares. Deixo de me sentir de tão dormente que estou, de tão dormente que me decido ficar. Vencer é saber também quando desistir e deixar de dar, ciclicamente, ao outro o sabor da vitória constante sobre nós.
[E arranco, sozinha, pelo caminho que os meus olhos, os meus dedos e os meus lábios me levam. Sem ti. Sem esse pedaço de ti que não sabe permanecer.]

8 de Março de 2008

O homem do chapéu cinzento

Era uma bela tarde de Domingo. Os habitantes do quarteirão passeavam pelas ruas, sorrindo, enquanto conversavam cumplicemente. As meninas pequenas, já com saias por cima do joelho, imitavam os tiques das mães no reflexo da montra da loja e riam-se, entre dentes, com a mesma delicadeza. (Sentiam-se grandes.) Já havia uma luz forte a bater nos rostos dos que se ficavam nas esplanadas. Escondendo-se por trás das palmas das mãos, franziam a testa, os olhos, e continuavam a trocar palavras e confidências. Era uma bela tarde de Domingo, cheia de sol e de luz, de gente e de movimento. Os carros eram aglomerados diante da esplanada. A empregada de mesa cirandava por entre as mesas, aos solavancos de anca entre uma cadeira e outra, com as costas rectas e o olhar sempre medindo as distâncias e os gestos de alerta, de pedidos de atenção, de pedidos (simplesmente).

O homem do chapéu cinzento bebia o café, ali, todas as tardes. Mexia freneticamente no guardanapo que saltava de dentro da caixa. A empregada de mesa trazia-lhe, assim que ele se sentava, o café com leite, a torrada suave com manteiga q.b., o sumo de laranja sem água num copo pequeno. O homem do chapéu cinzento sorria e, mal o corpo dela se afastava, arregalava os olhos sobre a mesa e piscava o olho à saia, à cintura fina, à torrada cheirosa. Deliciava-se com um lanche fresco e, quando estava finalmente saciado, encostava-se às costas da cadeira, ajeitava o chapéu cinzento um pouco mais para baixo e dormitava, com o sol a queimar-lhe a ponta ligeira do nariz que se escapava por debaixo da pála. Um dia, enquanto dormitava, uma elegante senhora fez-se sentar na cadeira em frente e sussurrou uma tosse suave à frente do seu nariz. Sorria tenuemente, enquanto esperava que ele reagisse. Voltou a tossir. (Até a tosse era sensual.) O homem, metido com os seus pensamentos de homem quase a dormitar, continuou. Imaginava-se distante dali. Queria um barco, um mar, uma terra qualquer para onde poder ir. Queria belas mulheres à volta de si mesmo, com biquinis curtos e cor de leopardo, com colares coloridos às bolas sobre os peitos carnudos. O homem divagava de tal modo, com o chapéu tapando-o quase até a ponta do nariz, e ouvia o cirandar sistemático da empresaga de mesa por toda a esplanada. Era uma bela tarde quente e luminosa de Domingo. Até que a mulher voltou a tossir, mas desta vez com mais força. Tossiu de tal maneira que se lhe escapou um pedaço de saliva que embateu, certeiro, na ponta do nariz do homem. O homem saltou. Lançou a mão à ponta deste e esfregou-o com força. Franziu a testa, quase deixando que o chapéu escorregasse pela cara e pelo pescoço abaixo, mas um gesto brusco de queixo manteve-o no cimo, onde estava. A mulher voltou a tossir, com ar aflito, debruçando o decote por cima dos braços cruzados sobre a mesa, ensinuando-se. Era uma bela mulher de cabelos volumosos, olhos azuis, pálpebras longas e decote largo. Mantinha o sorriso malicioso, sedutor, como se estivesse a sorrir desde o último segundo. (Na verdade, já lhe doíam os músculos grossos das bochechas e o olhar, esse, fundia-se num ponto qualquer indefinido, desmotivado pela espera demorada de encontrar o olhar dele.) A mulher voltou a tossir, na esperança vã que ele pressentisse a presença dela e desnudasse o rosto, e, para além de tossir, murmurou um rasgo finito de acordar, tentando que este lhe chamasse, sim, a atenção. Mas o homem continuou impávido. A mulher mudou então de posição. As costas já lhe pesavam demasiado, o peito parecia cair já do pescoço cansado, os braços estavam marcados pelas ripas de madeira do tampo da mesa, os sapatos altos já não encontravam posições elegantes para estarem. A mulher suspirou fundo, encolheu os ombros e agarrou num pedaço de guardanapo que ali estava, sobre a mesa, onde escreveu. Levantou-se num repente e foi-se embora, derrubando com o vento o chapéu cinzento de cima da cabeça do homem. Quando este abriu os olhos, estremunhado com tamanha abruptidão, resmungou, entre dentes, para o ar, como se tivesse sido um vento mais forte que por ali teria passado. Foi quando se debruçou para apanhar o chapéu que caíra no chão que vira um papel em cima da mesa, escrito com uma letra que não era a dele: «As oportunidades maravilhosas que se perdem, na vida, só porque estamos demasiado metidos no nosso próprio mundo. Ass.: Loira de morrer P.S.: Para a próxima, não seja abutre.» O homem, acabando de ler isto, soltou uma  valente gargalhada.

Era uma bela tarde de Domingo. O homem do chapéu cinzento não queria saber de mais nada. Preferia um mundo a mil cores dentro da imaginação que era a sua. Uma esfera invisivel, onde podia tocar e sentir da maneira que queria. A loira de morrer. A morena de cabelo livre. A menina frágil sentada na cadeira em frente, no outro lado da esplanada, a observar tudo. O céu quente, fundo, cheio de luz, a sorrir-lhe sobre a ponta do nariz. O homem do chapéu cinzento estava-se pouco nas tintas para os decotes largos, para as insinuações ousadas da vizinha do quarto piso que, não só cansada de lhe deixar bilhetes debaixo da porta, ainda se dava ao luxo de se sentar à mesa dele. A vizinha do quarto piso que, não só se dando ao luxo de se sentar à mesa dele, ainda lhe deixava recados. O homem do chapéu cinzento não queria nem saber. [A loira de morrer, que estava escondida atrás de um carro, a observar-lhe a reacção ao ler o recado, bateu então com o pé no chão e foi-se embora orgulhosamente a chorar.]