<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-11259111</id><updated>2012-02-16T06:57:07.804Z</updated><title type='text'>palavras - laura azevedo . com</title><subtitle type='html'>porque gosto de pontos finais, de vírgulas, de letras, de orações, de descrições e de... intensidade</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://palavras-la.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11259111/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-la.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Laura Azevedo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11510616410993579318</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_9FhbDhZ-vXE/TLCnpB1dobI/AAAAAAAAAKI/0AdgcZj74gU/S220/37142_467800013155_599438155_6562976_3216635_n.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>19</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11259111.post-9112074126898228852</id><published>2010-02-03T22:56:00.005Z</published><updated>2011-10-18T01:22:37.661+01:00</updated><title type='text'>.</title><content type='html'>Um ponto. Escrevo um ponto no primeiro lugar que precisa de palavras. Desenho um ponto, assim, no lugar onde se deve escrever o título, no lugar que aspira simbolizar a essência do texto que se segue, no lugar que é a alavanca para a curiosidade, a semelhança, a aproximação ao outro, a coerência com quem escreve. Desenho um ponto no primeiro espaço que tenho de preencher porque o seu vazio, a sua ausência, o seu ainda nada, me incomoda, me irrequieta. Queria escrever sem ter de pensar nisso: no título. Despejar as emoções como sacos cheios de tudo, sem ter depois de separar cada pedaço, sem ter de o catalogar, estereotipar, sem ter de lhe dar imperativamente um sentido. As emoções são isso: o tudo e o nada, quente e fogo, a urgência derradeira e, simultâneamente, no segundo seguinte, ou no minuto, ou dez minutos mais à frente, ou um gesto mais adiante, ou uma palavra a mais dita, a calma, a indiferença, o quase não sentir. Queria sentar-me, aqui, e ser capaz de começar de uma ponta das emoções e terminar só na outra, quando já estivesse satisfeita da minha análise, ciente de ter descrito tudo ao mínimo detalhe, de não me ter escapado nada – nenhuma emoção importante, ou não – e de estar saciada de mim, saciada daquilo que somos, sem palavras ainda por escrever. Encontrar uma lógica para as emoções, ou simplesmente não encontrar lógica nenhuma e nem sequer me importar com isso. Ter capacidade para mostrar que o interior humano é tão vasto e tão genuinamente cheio de sentimentos e emoções contraditórias, sem sentir culpa pela ilógica que possa transmitir. O caos não é demência, nem tristeza, nem doença. O caos é estar vivo. É sentir com intensidade, viver de peito aberto, ter esperança, tentar compreender a imensa capacidade humana de sentir os mais diversos sentimentos e emoções. O caos é olhar para dentro e não mentir sobre o que se vê: a nós próprios. E não ter vergonha de o mostrar. Sobretudo, queria escrever sem ter de me preocupar com o título. Não é o caos - o seu sentido - que me preocupa. Não é a coerência eventualmente perdida. É o título. Este factor que, na maior parte das vezes, descredibiliza o conteúdo, que joga as emoções contra a parede e lhes grita, com um ar altivo e arrogante: “Enquanto não decidires um título decente, não és nada com sentido!” Hoje, especialmente, apenas porque sim, apenas porque me apetece, apenas porque quero, apenas porque preciso, apenas porque sou eu que decido, um ponto. Um ponto que poderá ser um ponto de luz, ou um descuido de tinta que calhou ali, ou um tropeção no teclado que o fez aparecer ali, ou um ponto negro no meu nariz, ou um ponto indicador de onde deverá depois ser escrito o título do texto. Ou não. Talvez não seja nada disso. Talvez seja apenas um ponto que poderá ser o &lt;em&gt;ponto final&lt;/em&gt; de um assunto. Ou de uma fase, de uma etapa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11259111-9112074126898228852?l=palavras-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-la.blogspot.com/feeds/9112074126898228852/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=11259111&amp;postID=9112074126898228852&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11259111/posts/default/9112074126898228852'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11259111/posts/default/9112074126898228852'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-la.blogspot.com/2010/02/blog-post.html' title='.'/><author><name>Laura Azevedo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11510616410993579318</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_9FhbDhZ-vXE/TLCnpB1dobI/AAAAAAAAAKI/0AdgcZj74gU/S220/37142_467800013155_599438155_6562976_3216635_n.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11259111.post-5957374235601776605</id><published>2009-04-21T20:37:00.004+01:00</published><updated>2011-10-18T01:22:37.648+01:00</updated><title type='text'>Vidas cruzadas [excertos de emoções agúdas que, ao mesmo tempo que nos aceleram, agonizam connosco]</title><content type='html'>Detenho o meu olhar na ponta dos teus dedos, como se eles fossem uma orquestra de sentidos e de oportunidades que me ditasse as regras de todos os meus caminhos. Detenho o meu olhar na borda perfeita dos teus lábios, como se eles pudessem devolver-me, ou retirar-me, a coragem, a força, o sentido. Detenho o meu olhar no círculo perfeito da tua retina, no abrir e fechar das pálpebras redondas, do esgar lento ou abrupto do sobrolho, como se pudessem ser o mapa que, inevitavelmente, me guia; que serve de ponta de lança para as minhas reacções, para os meus sentimentos, para as minhas dúvidas e inseguranças. Detenho-o. Detenho-me. Sou a personificação&amp;nbsp;da Senhora Expectativa e essa minha vulnerabilidade não te incomoda: é, pelo contrário, o &lt;span class="blsp-spelling-corrected" id="SPELLING_ERROR_1"&gt;trampolim&lt;/span&gt; egoísta que te impulsiona a agir com a certeza de que tudo poderá ser dito, ou escolhido, porque o meu olhar manter-se-á, independentemente disso, na tua direcção.&lt;br /&gt;[Chove na rua. &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_2"&gt;Gabardinas&lt;/span&gt; e guarda-chuvas empoleirados em entradas de restaurantes, de cafés, de esqueletos que circundam por aqui. Conversas serenas, mantidas entre uma garfada e outra, com metade dos olhos no rosto do outro e a metade restante no pedaço de carne que se encosta ao bocado de arroz, ao bocado de carne dos lábios, às entranhas húmidas dos corpos. Chove na rua. Chove, aqui, no pedaço de sal que quase me cai dos olhos.]&lt;br /&gt;«A vida é um jogo» – dizes-me tu nas entrelinhas de tudo o que me dizes. Os teus olhos não fitam os meus sem o tórrido sentido de ironia crispado pelo meio das pestanas, como fogo que me é lançado pelos meus olhos adentro, como tochas inundadas de álcool que flamejam violentamente entre nós os dois, como se a distância e a incapacidade de a ultrapassar pudesse queimar-me o corpo todo, por dentro, com esta revolta medonha e esta frustração impotente de ter os lábios cosidos.&lt;br /&gt;[Não estamos sozinhos.]&lt;br /&gt;«A vida é um capricho» – dizes-me tu nos silêncios de tudo o que ages. Um capricho medonho, com cheiro falso a liberdade que tudo tira dos outros, sem a menor noção disso mesmo, sem qualquer preocupação em respeitar as vontades e as necessidades de permanência, de sentir, de ser. Um capricho egoísta que só reconhece a sua necessidade, que se ri às gargalhadas das fragilidades dos outros, que nem sequer se esforça por olhá-las de frente, que não sente, que não chora, que não tenta agradar, que não procura tranquilizar – que não sente remorsos. Detenho o meu olhar no teu olhar: esse olhar redondo, silencioso, como se todo ele estivesse cheio de raiva, cheio de questão de ser frio e seco e morto por dentro. Morto, por dentro.&lt;br /&gt;Enquanto detenho os meus olhos em tudo o que és tu, as palavras do que dizes provocam este eco gritante dentro do meu cérebro e cada segundo parece ser muito mais do que isso e cada silêncio, entre cada palavra, parece ser muito mais do que silêncio. Não vês, cego no teu capricho, que os meus olhos são luzes de fogo à tua frente, iluminadas pela paixão que se sentou sobre as rochas do meu peito e que vai molhando os pés, distraída, a olhar as &lt;span class="blsp-spelling-corrected" id="SPELLING_ERROR_3"&gt;nuvens&lt;/span&gt; e o sol, no meu estômago. De cada vez que as tuas palavras resvalam secas e surdas, o sol desaparece por trás das nuvens e uma onda forte de frio fá-la tremer tanto que toda eu me quedo nesta agonia de sentir o estômago turvo com os pés apressados dela que teimam sair de mim e bater violentamente sobre o meu peito. De cada vez que batem sobre o meu peito, não consigo respirar. Fico &lt;span class="blsp-spelling-corrected" id="SPELLING_ERROR_4"&gt;paralisada&lt;/span&gt;. Fico &lt;span class="blsp-spelling-corrected" id="SPELLING_ERROR_5"&gt;paralisada&lt;/span&gt; a vê-la. Fico &lt;span class="blsp-spelling-corrected" id="SPELLING_ERROR_6"&gt;paralisada&lt;/span&gt; a sentir a dor. Fico &lt;span class="blsp-spelling-corrected" id="SPELLING_ERROR_7"&gt;paralisada&lt;/span&gt; ao olhar para ti.&lt;br /&gt;[Não estamos sozinhos. Chove lá fora. &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_8"&gt;Gabardinas&lt;/span&gt; e guarda-chuvas &lt;span class="blsp-spelling-corrected" id="SPELLING_ERROR_9"&gt;empoleirados&lt;/span&gt; por todo o lado. Corpos ocupados. Conversas casuais mantidas durante o jantar. A nossa mesa está vazia, servindo apenas de apoio aos teus braços cruzados, cerrados sobre ti mesmo, incapazes de me deixar entrar nesse abrigo quente onde queres ficar sozinho.]&lt;br /&gt;Detenho o meu olhar na ponta dos teus dedos, como se eles fossem uma orquestra de sentidos e de oportunidades que me ditasse as regras de todos os meus caminhos. A ponta dos teus dedos. Os teus lábios. O teu olhar. Detenho-os. Detenho-me. Respiro fundo. Cerro os maxilares. Deixo de me sentir de tão dormente que estou, de tão dormente que me decido ficar. Vencer é saber também quando desistir e deixar de dar, ciclicamente, ao outro o sabor da vitória constante sobre nós.&lt;br /&gt;[E arranco, sozinha, pelo caminho que os meus olhos, os meus dedos e os meus lábios me levam. Sem ti. Sem esse pedaço de ti que não sabe permanecer.]&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11259111-5957374235601776605?l=palavras-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-la.blogspot.com/feeds/5957374235601776605/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=11259111&amp;postID=5957374235601776605&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11259111/posts/default/5957374235601776605'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11259111/posts/default/5957374235601776605'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-la.blogspot.com/2009/04/vidas-cruzadas-excertos-de-emocoes.html' title='Vidas cruzadas [excertos de emoções agúdas que, ao mesmo tempo que nos aceleram, agonizam connosco]'/><author><name>Laura Azevedo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11510616410993579318</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_9FhbDhZ-vXE/TLCnpB1dobI/AAAAAAAAAKI/0AdgcZj74gU/S220/37142_467800013155_599438155_6562976_3216635_n.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11259111.post-6835152167887976847</id><published>2008-03-08T16:40:00.001Z</published><updated>2011-10-18T01:22:37.651+01:00</updated><title type='text'>O homem do chapéu cinzento</title><content type='html'>&lt;p&gt;Era uma bela tarde de Domingo. Os habitantes do quarteir&amp;#227;o passeavam pelas ruas, sorrindo, enquanto conversavam cumplicemente. As meninas pequenas, j&amp;#225; com saias por cima do joelho, imitavam os tiques das m&amp;#227;es no reflexo da montra da loja e riam-se, entre dentes, com a mesma delicadeza. (Sentiam-se grandes.) J&amp;#225; havia uma luz forte a bater nos rostos dos que se ficavam nas esplanadas. Escondendo-se por tr&amp;#225;s das palmas das m&amp;#227;os, franziam a testa, os olhos, e continuavam a trocar palavras e confid&amp;#234;ncias. Era uma bela tarde de Domingo, cheia de sol e de luz, de gente e de movimento. Os carros eram aglomerados diante da esplanada. A empregada de mesa cirandava por entre as mesas, aos solavancos de anca entre uma cadeira e outra, com as costas rectas e o olhar sempre medindo as dist&amp;#226;ncias e os gestos de alerta, de pedidos de aten&amp;#231;&amp;#227;o, de pedidos (simplesmente).&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;O homem do chap&amp;#233;u cinzento bebia o caf&amp;#233;, ali, todas as tardes. Mexia freneticamente no guardanapo que saltava de dentro da caixa. A empregada de mesa trazia-lhe, assim que ele se sentava, o caf&amp;#233; com leite, a torrada suave com manteiga q.b., o sumo de laranja sem &amp;#225;gua num copo pequeno. O homem do chap&amp;#233;u cinzento sorria e, mal o corpo dela se afastava, arregalava os olhos sobre a mesa e piscava o olho &amp;#224; saia, &amp;#224; cintura fina, &amp;#224; torrada cheirosa. Deliciava-se com um lanche fresco e, quando estava finalmente saciado, encostava-se &amp;#224;s costas da cadeira, ajeitava o chap&amp;#233;u cinzento um pouco mais para baixo e dormitava, com o sol a queimar-lhe a ponta ligeira do nariz que se escapava por debaixo da p&amp;#225;la. Um dia, enquanto dormitava, uma elegante senhora fez-se sentar na cadeira em frente e sussurrou uma tosse suave &amp;#224; frente do seu nariz. Sorria tenuemente, enquanto esperava que ele reagisse. Voltou a tossir. (At&amp;#233; a tosse era sensual.) O homem, metido com os seus pensamentos de homem quase a dormitar, continuou. Imaginava-se distante dali. Queria um barco, um mar, uma terra qualquer para onde poder ir. Queria belas mulheres &amp;#224; volta de si mesmo, com biquinis curtos e cor de leopardo, com colares coloridos &amp;#224;s bolas sobre os peitos carnudos. O homem divagava de tal modo, com o chap&amp;#233;u tapando-o quase at&amp;#233; a ponta do nariz, e ouvia o cirandar sistem&amp;#225;tico da empresaga de mesa por toda a esplanada. Era uma bela tarde quente e luminosa de Domingo. At&amp;#233; que a mulher voltou a tossir, mas desta vez com mais for&amp;#231;a. Tossiu de tal maneira que se lhe escapou um peda&amp;#231;o de saliva que embateu, certeiro, na ponta do nariz do homem. O homem saltou. Lan&amp;#231;ou a m&amp;#227;o &amp;#224; ponta deste e esfregou-o com for&amp;#231;a. Franziu a testa, quase deixando que o chap&amp;#233;u escorregasse pela cara e pelo pesco&amp;#231;o abaixo, mas um gesto brusco de queixo manteve-o no cimo, onde estava. A mulher voltou a tossir, com ar aflito, debru&amp;#231;ando o decote por cima dos bra&amp;#231;os cruzados sobre a mesa, ensinuando-se. Era uma bela mulher de cabelos volumosos, olhos azuis, p&amp;#225;lpebras longas e decote largo. Mantinha o sorriso malicioso, sedutor, como se estivesse a sorrir desde o &amp;#250;ltimo segundo. (Na verdade, j&amp;#225; lhe do&amp;#237;am os m&amp;#250;sculos grossos das bochechas e o olhar, esse, fundia-se num ponto qualquer indefinido, desmotivado pela espera demorada de encontrar o olhar dele.) A mulher voltou a tossir, na esperan&amp;#231;a v&amp;#227; que ele pressentisse a presen&amp;#231;a dela e desnudasse o rosto, e, para al&amp;#233;m de tossir, murmurou um rasgo finito de acordar, tentando que este lhe chamasse, sim, a aten&amp;#231;&amp;#227;o. Mas o homem continuou imp&amp;#225;vido. A mulher mudou ent&amp;#227;o de posi&amp;#231;&amp;#227;o. As costas j&amp;#225; lhe pesavam demasiado, o peito parecia cair j&amp;#225; do pesco&amp;#231;o cansado, os bra&amp;#231;os estavam marcados pelas ripas de madeira do tampo da mesa, os sapatos altos j&amp;#225; n&amp;#227;o encontravam posi&amp;#231;&amp;#245;es elegantes para estarem. A mulher suspirou fundo, encolheu os ombros e agarrou num peda&amp;#231;o de guardanapo que ali estava, sobre a mesa, onde escreveu. Levantou-se num repente e foi-se embora, derrubando com o vento o chap&amp;#233;u cinzento de cima da cabe&amp;#231;a do homem. Quando este abriu os olhos, estremunhado com tamanha abruptid&amp;#227;o, resmungou, entre dentes, para o ar, como se tivesse sido um vento mais forte que por ali teria passado. Foi quando se debru&amp;#231;ou para apanhar o chap&amp;#233;u que ca&amp;#237;ra no ch&amp;#227;o que vira um papel em cima da mesa, escrito com uma letra que n&amp;#227;o era a dele: &amp;#171;As oportunidades maravilhosas que se perdem, na vida, s&amp;#243; porque estamos demasiado metidos no nosso pr&amp;#243;prio mundo. Ass.: Loira de morrer P.S.: Para a pr&amp;#243;xima, n&amp;#227;o seja abutre.&amp;#187; O homem, acabando de ler isto, soltou uma&amp;#160; valente gargalhada.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Era uma bela tarde de Domingo. O homem do chap&amp;#233;u cinzento n&amp;#227;o queria saber de mais nada. Preferia um mundo a mil cores dentro da imagina&amp;#231;&amp;#227;o que era a sua. Uma esfera invisivel, onde podia tocar e sentir da maneira que queria. A loira de morrer. A morena de cabelo livre. A menina fr&amp;#225;gil sentada na cadeira em frente, no outro lado da esplanada, a observar tudo. O c&amp;#233;u quente, fundo, cheio de luz, a sorrir-lhe sobre a ponta do nariz. O homem do chap&amp;#233;u cinzento estava-se pouco nas tintas para os decotes largos, para as insinua&amp;#231;&amp;#245;es ousadas da vizinha do quarto piso que, n&amp;#227;o s&amp;#243; cansada de lhe deixar bilhetes debaixo da porta, ainda se dava ao luxo de se sentar &amp;#224; mesa dele. A vizinha do quarto piso que, n&amp;#227;o s&amp;#243; se dando ao luxo de se sentar &amp;#224; mesa dele, ainda lhe deixava recados. O homem do chap&amp;#233;u cinzento n&amp;#227;o queria nem saber. [A loira de morrer, que estava escondida atr&amp;#225;s de um carro, a observar-lhe a reac&amp;#231;&amp;#227;o ao ler o recado, bateu ent&amp;#227;o com o p&amp;#233; no ch&amp;#227;o e foi-se embora orgulhosamente a chorar.]&lt;/p&gt;  &lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11259111-6835152167887976847?l=palavras-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-la.blogspot.com/feeds/6835152167887976847/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=11259111&amp;postID=6835152167887976847&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11259111/posts/default/6835152167887976847'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11259111/posts/default/6835152167887976847'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-la.blogspot.com/2008/03/o-homem-do-chapu-cinzento.html' title='O homem do chapéu cinzento'/><author><name>Laura Azevedo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11510616410993579318</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_9FhbDhZ-vXE/TLCnpB1dobI/AAAAAAAAAKI/0AdgcZj74gU/S220/37142_467800013155_599438155_6562976_3216635_n.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11259111.post-500031865476964554</id><published>2008-03-07T14:50:00.001Z</published><updated>2011-10-18T01:22:37.639+01:00</updated><title type='text'>Lisboa, nela</title><content type='html'>&lt;p&gt;Lisboa abre-me os bra&amp;#231;os. Os bra&amp;#231;os da cidade s&amp;#227;o largos e longos, &amp;#225;geis e imensos, mas sabem tamb&amp;#233;m ser estreitos, fundos, atentos. Lisboa abre-me os bra&amp;#231;os e senta-se &amp;#224; minha frente. Sorri-me, serena, deixando cair a luz dos candeeiros sobre mim. Lisboa abre-me os bra&amp;#231;os e senta-se &amp;#224; minha frente, com os bra&amp;#231;os dobrados sobre os joelhos, com o queixo apoiado na palma da m&amp;#227;o. Vejo-lhe os olhos abertos, redondos, com pestanas enormes e gordas, grossas, &amp;#224; volta do fundo azul e vivo, na minha direc&amp;#231;&amp;#227;o. Vejo-lhe as madeixas de cabelo farto, ca&amp;#237;das sobre a testa, longamente, como duas tochas escuras de fogo. Lisboa sorri-me, novamente, e fica-se, assim, com o sorriso prostrado nos l&amp;#225;bios carnudos, como um anjo, calma. Lisboa sorri-me e pergunta-me. Lisboa sorri-me e desconstrai ainda mais o bra&amp;#231;o pendido, o queixo sobre a palma da m&amp;#227;o. Lisboa sorri-me e ri-se. Lisboa sussurra-me. Lisboa observa-me e imita-me. Lisboa provoca-me, assim, para que eu perceba que ainda n&amp;#227;o sa&amp;#237;u dali. Lisboa torna a sorrir. Longamente.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Percorro a cal&amp;#231;ada de pedra das ruas da cidade. Est&amp;#225; escuro aqui. Saio da porta larga do edif&amp;#237;cio onde moro, agora, e o verde escuro dos jardins entra-me pelos olhos como duas mantas espessas de cor. Cruzo-me com os vizinhos - corpos que ainda n&amp;#227;o conhe&amp;#231;o - e des&amp;#231;o os dois degraus que ficam no final do quarteir&amp;#227;o. Os pr&amp;#233;dios s&amp;#227;o caixotes altos e amarelos, com janelas grandes, com &amp;#225;rvores altas encostadas aos vidros dos primeiros andares. Jardins. Parques. Esplanadas. Caf&amp;#233;s que, de noite, s&amp;#227;o apenas luz amarela fugida por entre as duas portas abertas. Percorro a cal&amp;#231;ada de pedra das ruas da cidade e vou conhecendo os detalhes, os cantos, os h&amp;#225;bitos que ficam neles. Cruzo-me com os carros, com os hor&amp;#225;rios dos outros. Corro. A cidade escura tem uma luz forte ca&amp;#237;da sobre mim. Abrando. Ali, de repente, sinto curiosidade de espreitar. Quero tocar a pedra do muro com as minhas m&amp;#227;os, sentir a espessura timbrando-se na minha pele, olhar de perto a dist&amp;#226;ncia entre um gr&amp;#227;o de terra e outro. Mas, assim, quando eu viro o meu rosto, quando o meu corpo gira sobre o pr&amp;#243;prio tornozelo, oi&amp;#231;o m&amp;#250;sica. A m&amp;#250;sica, que se enrola por entre o ar, como se tivesse bra&amp;#231;os e pernas, como se pudesse envolver-se e cirular sozinha pelos espa&amp;#231;os vazios que ficam entre as pessoas e as coisas. Aproximo-me e toco-lhe. Toco na m&amp;#250;sica e sinto-lhe a espessura fr&amp;#225;gil e densa, rugosa e com tantos detalhes que os meus olhos se abrem, como duas bolas grandes e brancas, &amp;#224; medida que a percebo. Jardins. Parques. Esplanadas. Caf&amp;#233;s que, de noite, s&amp;#227;o apenas luz amarela fugida por entre as duas portas abertas. Percorro a cal&amp;#231;ada de pedra das ruas, enquanto a noite de Lisboa respira sobre o meu pesco&amp;#231;o e parece-me ouvi-la. De repente, quando viro o meu rosto, quando o meu corpo gira sobre o meu pr&amp;#243;prio tornozelo, toda a m&amp;#250;sica desaparece e eis que surge a imagem branda de um corpo encostado &amp;#224; parede. Um corpo. Um vulto. Tra&amp;#231;os lentos, quedados no sil&amp;#234;ncio de n&amp;#227;o haver mais ningu&amp;#233;m perto, como se as palavras, por si s&amp;#243;, pudessem em pensamento falar. E dizer tanto. Um vulto encostado &amp;#224; parede, com um dos bra&amp;#231;os agarrado &amp;#224; testa, com as rugas vincadas no rosto. Sinto vontade de, logo, saltar. Saltar para a frente, por cima do degrau, sobre as tiras brancas da passadeira dos pe&amp;#245;es, e encontr&amp;#225;-lo. Encontr&amp;#225;-lo, assim, quedado no seu pr&amp;#243;prio pensamento, e pedir-lhe que me deixe ouvir um pouco da melodia que toca perto dele. O vulto v&amp;#234;-me. O vulto fica t&amp;#237;mido, retra&amp;#237;do, sentindo-se invadido num espa&amp;#231;o seu, e afasta-se. Mas eu sorrio-lhe e provoco-o. O vulto percebe que n&amp;#227;o me fui embora. O vulto cede. O vulto sorri-me. O vulto baixa os olhos, timidamente, e volta a sorrir-me. O vulto, com carne sobre os ossos, com l&amp;#225;bios finos debaixo dos olhos, com m&amp;#227;os paradas que querem explorar a vida e senti-la perto, junto, rente, no meio dos dedos largos e longos, sem haver j&amp;#225; amanh&amp;#227;, volta a sorrir. E, quando giro sobre o seu pr&amp;#243;prio tornozelo para direccionar melhor o corpo para mim, desaparece. O vulto desaparece. A melodia, que ele ouvia, tamb&amp;#233;m. Ficou uma r&amp;#233;stia t&amp;#233;nue do cheiro. O cheiro do corpo, da pele, da sede pela vida, do medo.&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;Lisboa abre-me os bra&amp;#231;os e sorri-me. Lisboa t&amp;#227;o rica, t&amp;#227;o profunda, t&amp;#227;o cheia de detalhes maravilhosos que me fazem sentir o fogo dentro do peito. Lisboa abre-me os bra&amp;#231;os, sorri-me e eu sinto-lhe os olhos quedados com tanta for&amp;#231;a sobre os meus. Lisboa sorri-me. Lisboa provoca-me. Lisboa morde-me o queixo, o cotovelo, a ponta dos meus dedos, para que eu n&amp;#227;o me esque&amp;#231;a que ela est&amp;#225; l&amp;#225;, aqui, onde quer que eu esteja, viva. Lisboa relaxa ainda mais o bra&amp;#231;o ca&amp;#237;do e a palma da m&amp;#227;o que segura o rosto de anjo. Os olhos t&amp;#227;o grandes ficam-se, assim, a olhar-me. E eu, deste lado, a cada passo que avan&amp;#231;o sobre a cal&amp;#231;ada branca da cidade, olho Lisboa. [E sinto-me feliz nela.]&lt;/p&gt;  &lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11259111-500031865476964554?l=palavras-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-la.blogspot.com/feeds/500031865476964554/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=11259111&amp;postID=500031865476964554&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11259111/posts/default/500031865476964554'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11259111/posts/default/500031865476964554'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-la.blogspot.com/2008/03/lisboa-nela.html' title='Lisboa, nela'/><author><name>Laura Azevedo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11510616410993579318</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_9FhbDhZ-vXE/TLCnpB1dobI/AAAAAAAAAKI/0AdgcZj74gU/S220/37142_467800013155_599438155_6562976_3216635_n.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11259111.post-3379126937065164085</id><published>2007-06-12T16:32:00.000+01:00</published><updated>2011-10-18T01:22:37.634+01:00</updated><title type='text'>Prostituta</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_9FhbDhZ-vXE/Rm6_otBz19I/AAAAAAAAAAU/TPtfY1f5em4/s1600-h/Prostituta.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5075204536095987666" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_9FhbDhZ-vXE/Rm6_otBz19I/AAAAAAAAAAU/TPtfY1f5em4/s200/Prostituta.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;span style="font-size:78%;"&gt;Foto retirada de: &lt;/span&gt;&lt;a href="http://pracadarepublica.weblog.com.pt"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;http://pracadarepublica.weblog.com.pt&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Nas pernas abertas, como duas torres altas e escuras, os gestos lânguidos que detêm os minutos e que percorrem os meandros do corpo, as entranhas húmidas do ventre, o bafo quente da boca. A língua hirta e dura, como se fosse uma matéria densa e viva, penetra a boca quente e ávida do outro corpo, com soluços de desejo que vão crescendo até se tornarem violentos e imperativos. As mãos frenéticas apalpam os corpos, incapazes de sossegar dentro dos segundos, porque as mãos são extensões reais dos sentimentos e do desejo e da vontade. Os corpos perfazem um ritmo compassado que ora se estanca para contemplar o olhar do outro, ora se apressa por não ver mais nada. Nas palavras ditas, proferidas, em surdina, com a voz quase rouca a sair de dentro da garganta, uma sensualidade profunda que rasga os segundos. E que incita e entusiasma. E que seduz e aprisiona. A inevitabilidade tamanha faz os corpos parecem unos e nunca mais se soltarem - nunca mais, enquanto ali estão.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;[Nas pernas abertas, ela finge que o sente. Nas pernas abertas, ela sente-se dormente. Por dentro. Já não é capaz de sentir nada. (Mas não é preciso dizê-lo. Não é preciso que se saiba.)]&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11259111-3379126937065164085?l=palavras-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-la.blogspot.com/feeds/3379126937065164085/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=11259111&amp;postID=3379126937065164085&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11259111/posts/default/3379126937065164085'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11259111/posts/default/3379126937065164085'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-la.blogspot.com/2007/06/prostituta.html' title='Prostituta'/><author><name>Laura Azevedo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11510616410993579318</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_9FhbDhZ-vXE/TLCnpB1dobI/AAAAAAAAAKI/0AdgcZj74gU/S220/37142_467800013155_599438155_6562976_3216635_n.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_9FhbDhZ-vXE/Rm6_otBz19I/AAAAAAAAAAU/TPtfY1f5em4/s72-c/Prostituta.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11259111.post-5656933076026992538</id><published>2007-03-24T11:16:00.000Z</published><updated>2011-10-18T01:22:37.644+01:00</updated><title type='text'>Directo</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Sorrio. Há um pedaço de luz, dentro do meu corpo, que me ilumina os tecidos do corpo, que envolve os órgãos, que se faz ver na ponta luminosa dos meus dedos longos e tão pálidos. Há um pedaço de força a crescer, a querer ser ainda maior, a querer tocar, a querer entender, a querer alcançar o cume. Sorrio. Os meus lábios perdem-se num sorriso calmo e sereno. Os meus olhos fecham-se. A vida abraça-me. Sinto-a quente. Sinto-a forte, intensa, derradeira. A vida abraça-me longamente e diz-me um segredo. Qualquer coisa que não consigo pronunciar. Mas que sinto. Sinto-lhe as palavras. Sinto-lhe o tom doce da voz. Sinto-lhe o coração bater desenfreadamente, colado ao meu peito, perto do meu coração, e deixo fugir quase uma gargalhada. Uma gargalhada para o mundo, para a luz do mundo, para a intensidade do mundo - esse e este, cá dentro, onde as palavras parecem correr tão depressa, onde a paixão me queima, onde estou tão perto de tocar o sonho. Sinto que toda a vida esperei por isto. E, cada vez que estou sentada àquela mesa, cada vez que aquela luz dos holofotes enfrenta o meu rosto, cada vez que os segundos avançam para mim, cada vez que a minha voz soa naquele espaço fechado, cada vez que me oiço e que os oiço, a felicidade abraça-me e surrurra-me ao ouvido: "É o teu momento." E eu fico a olhar para ela, com o corpo todo a tremer-me, com o coração batendo como um louco, tão feliz por finalmente me ter reencontrado que as palavras ficam mudas na minha boca: de emoção.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11259111-5656933076026992538?l=palavras-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-la.blogspot.com/feeds/5656933076026992538/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=11259111&amp;postID=5656933076026992538&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11259111/posts/default/5656933076026992538'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11259111/posts/default/5656933076026992538'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-la.blogspot.com/2007/03/luz.html' title='Directo'/><author><name>Laura Azevedo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11510616410993579318</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_9FhbDhZ-vXE/TLCnpB1dobI/AAAAAAAAAKI/0AdgcZj74gU/S220/37142_467800013155_599438155_6562976_3216635_n.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11259111.post-115135800653581780</id><published>2006-06-26T22:38:00.000+01:00</published><updated>2011-10-18T01:22:37.626+01:00</updated><title type='text'>Hoje, não me apetece sair</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;«As janelas da casa onde vivi, durante todos os meus primeiros vinte anos de vida, eram brancas e tinham, já naquela altura, muito mais do que vinte anos. Gostava de abrir as janelas, como ainda gosto, para deixar o ar circular por todo o meu quarto, porque, assim, não me sentia apenas dentro de casa: mas, sim, liberta, tão liberta que quase me sentia parte do mundo todo que existia, ali, mesmo à minha frente, no outro lado da ombreira da janela.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;As janelas foram sempre importantes para mim. Talvez as janelas sejam sempre importantes para qualquer adolescente. Eu ficava, horas e horas, à janela, vendo as pessoas circulando pelas ruas e olhando para as árvores que abanavam à medida do vento. Dizia «hoje não me apetece sair», porque não queria sair, porque era uma adolescente, porque queria fechar-me no quarto, e, depois, abria as janelas do meu quarto e saía do quarto, saía da casa, saía de mim. Os meus olhos descansavam naquele horizonte e o meu coração enchia-se de ar para, logo, o soltar num suspiro fundo e lento. Quando me sentava à minha secretária, movida pela necessidade de escrever, fechava os olhos para procurar as emoções dentro de mim. Tinha, nas minhas mãos, nos meus dedos, a caneta e fechava os olhos, cerrava-os tão bem, para encontrar as emoções dentro de mim. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Todavia, por vezes, as emoções escapavam-me por entre tanta atenção e eu, sentindo que me faltava um impulso maior, erguia-me da cadeira e aproximava-me da janela. Ficava, ali, diante da janela, com a minha testa encostada ao vidro da janela, a olhar as ruas, a olhar as pessoas, a olhar os caixotes do lixo, a olhar os miúdos da minha idade sentados nos degraus das portas dos prédios, a olhar o céu e um infinito feito de casas e de prédios e de um silêncio e de uma calma características de um Sábado à tarde. E, naquele repente, enquanto a minha testa esfriava, encostada ao vidro das janelas, sentia que os meus dedos tinham já tanta força para escrever que me voltava a sentar à secretária para escrever durante toda a tarde.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Nas férias, a minha prima costumava estar connosco. E nós, adolescentes, íamos para a janela, depois dos jantares de família, conversar sobre as nossas coisas. Conversávamos tanto. Conversávamos tanto e sobre tanto. A noite ia aparecendo e nós conversando. De vez em quando, tecíamos um comentário sobre algum acontecimento que ocorria na rua e, depois, voltávamos aos nossos assuntos. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Quando crescemos um pouco mais, deixámos de querer apenas conversar. Estava a crescer em nós uma rebeldia particular. Por isso, nas férias, quando a minha prima costumava estar connosco ou quando eu costumava estar com a minha prima, íamos para a janela meter-nos com as pessoas, atirar sacos cheios de água, atirar grãos e feijões e, por vezes, peças de lego. Noutras vezes, apenas gritávamos, chamando as pessoas que passavam por baixo de nós, e depois escondiamo-nos. Depois, as nossas mães apareciam na porta dos nossos quartos, ou das cozinhas, e perguntavam-nos «o que é que estão a fazer?» e nós respondíamos «nada, apenas a conversar».&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ainda hoje, as janelas são, para mim, tão importantes. Ainda hoje, as janelas são, para mim, um impulso às emoções, uma forma súbtil de espreitar o mundo sem que ele me veja. Gosto sempre de casas com janelas grandes, onde a luz entra e invade todos os espaços, instalando-se sobre os móveis, os tapetes, os livros e empalidecendo as caras que estão mesmo à frente da luz. Ainda hoje, prefiro sempre dormir de janelas abertas, para poder espreitar a rua, de vez em quando, quando acordo a meio de um sonho e preciso de sentir que o mundo não acabou entre os segundos torpes do meu sono medonho. Ainda hoje, gosto de sentir o sol através das janelas, através dos vidros, e, como quando era tão mais pequena, prefiro sempre ir no banco de trás do carro para poder encostar a testa ao vidro do carro e ficar a ver o horizonte passar lentamente; para poder ficar, dentro do meu mundo, com os meus pensamentos, com os meus sentimentos, enquanto toda a luz me aquece a alma e me reconforta.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Nunca hei-de querer viver numa casa sem janelas e sem luz. O mundo existe para lá dos vidros, mansamente, sob a atenção cuidada de quem o quiser contemplar, e eu, como sempre até aqui, quero tocar o mundo – e senti-lo dentro de mim, e sentir-me inundada por ele. As janelas. Nunca hei-de querer viver sem janelas. E, hoje, dez anos depois, também «não me apetece sair». Não. Ficarei, dentro, a olhar o mundo. Pela janela.»&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Trebuchet MS;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Trebuchet MS;"&gt;&lt;em&gt;Algo que escrevi, publicado no &lt;a href="http://dn.sapo.pt/dnjovem/capadnj.htm"&gt;suplemento Jovem&lt;/a&gt; do Diário de Notícias, no dia 23-06-2006.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11259111-115135800653581780?l=palavras-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-la.blogspot.com/feeds/115135800653581780/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=11259111&amp;postID=115135800653581780&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11259111/posts/default/115135800653581780'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11259111/posts/default/115135800653581780'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-la.blogspot.com/2006/06/hoje-no-me-apetece-sair.html' title='Hoje, não me apetece sair'/><author><name>Laura Azevedo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11510616410993579318</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_9FhbDhZ-vXE/TLCnpB1dobI/AAAAAAAAAKI/0AdgcZj74gU/S220/37142_467800013155_599438155_6562976_3216635_n.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11259111.post-114885703589591025</id><published>2006-05-28T23:56:00.000+01:00</published><updated>2011-10-18T01:22:37.622+01:00</updated><title type='text'>Infinito, amor</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span &gt;«É tudo tão imenso à minha frente: uma extensão de areia; uma área imensa de luz e de árvores; um infinito que termina onde não tenho sequer capacidade de o definir. Sinto o vento batendo-me na face, nos olhos, nos cabelos. Estanco os meus pés no chão da terra e baixo o meu escudo. Tenho as mãos aflitas de ansiedade, de força, e os meus pés ficam imóveis no solo que existe debaixo de mim. O vento. A terra imensa e árida, ali, diante dos meus olhos, sem nada para lá da simples terra, sem nada para lá daquela luz.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span &gt;&lt;br /&gt;Venho de ali. Venho de onde não podia mais ficar. E todo o céu se curvou, à medida que os meus passos urgiam sobre a terra, à medida que o meu coração enfraquecia na partida e transbordava quase de mim. O meu coração. As minhas palavras, que ficaram aborvidas pelos espaços, que ficaram ao longo dos quilómetros de terra que percorri com a urgência da necessidade, que ficaram ecoando num lugar que parece ainda maior do que tudo isto. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Estanco os meus pés neste chão de terra e sinto que o mundo é tão grande, tão maior, tão mais imponente do que qualquer pormenor que permitimos que nos contrarie, que tenho o peito comprimido numa comoção inevitável. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Aqui, vejo o céu, vejo o infinito, vejo a luz; e sinto-me parte integrante de tudo, sinto-me parte do céu, parte do infinito, parte da luz. Aqui, eu sinto as vibrações do vento, dentro do meu peito, e tenho, em mim, uma vontade louca de gritar, de deixar que os sons percorram a distância que os meus olhos já nem conseguem abarcar. Aqui, eu toco a terra, eu sinto-a quente e árida entre os meus dedos, eu sinto-a escorrer por entre os meus dedos, e preciso que a vida permaneça. Aqui, eu sinto que a vida me detém; que a vida me absorve; que a força me liberta de tudo e de todos, mas, sobretudo, de mim. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Venho dali. Venho de onde não poderia mais ficar. E todo o calor, que esteve sempre dentro de mim, ultrapassa as fronteiras da casualidade e progride. Todo o calor, que esteve sempre aqui dentro, ultrapassa as fronteiras do meu corpo, ultrapassa os limites da minha razão, e progride. Todo o calor, que esteve sempre abafado dentro de mim, que permaneceu sempre ao longo dos dias, ultrapassa todas as fronteiras, ultrapassa todas as razões, ultrapassa todos os tempos de todas as razões, e progride, e queima, e desata num fogo absoluto que faz chama e que dá luz e que permanece e perdura. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Venho dali, de onde as vozes mal se ouviam, de onde os gestos eram sempre obtusos, de onde os escudos eram sempre erguidos na força da acalmia, e vejo o infinito que se estende à frente dos meus olhos; vejo a terra imensa, castanha, cheia da luz que se reflecte nela, e sinto que o mundo desapareceu e, ao mesmo tempo, que voltou, que voltou ainda mais redondo, que voltou ainda mais intenso e maior. E eu curvo-me, e eu estendo-me, e eu sorrio, e eu respiro, enquanto a bola, dentro do peito, parece uma chama imensa de calor – e de fogo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Baixo o meu escudo e fico à espera que o mundo me abrace; que o mundo me envolva nos seus refúgios feitos de ternura e de quente; que o mundo me beije na face e que me segure na mão com a ponta dos seus dedos frágeis; que o mundo me erga da terra e me permita voar, onde não existe mais do que céu, mais do que infinito e mais do que luz. E, enquanto espero, queimo.»&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;Publicado no DN Jovem, dia 16 de Julho.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11259111-114885703589591025?l=palavras-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-la.blogspot.com/feeds/114885703589591025/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=11259111&amp;postID=114885703589591025&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11259111/posts/default/114885703589591025'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11259111/posts/default/114885703589591025'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-la.blogspot.com/2006/05/infinito-amor.html' title='Infinito, amor'/><author><name>Laura Azevedo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11510616410993579318</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_9FhbDhZ-vXE/TLCnpB1dobI/AAAAAAAAAKI/0AdgcZj74gU/S220/37142_467800013155_599438155_6562976_3216635_n.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11259111.post-114780231085579722</id><published>2006-05-16T18:57:00.000+01:00</published><updated>2011-10-18T01:22:37.619+01:00</updated><title type='text'>Música</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Penso eu:&lt;/em&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Por mais que consigamos utilizar as vírgulas e assimilar novos significados com relativa facilidade, ou mesmo ser dotados de uma grande capacidade de expressão, há emoções que não conseguimos verbalizar – por muito que queiramos, por muito que o desejemos – porque transcendem qualquer ordem ou forma verbal. Por isso, somos emotivos, para além de racionais. E por isso, em regra geral, um momento intensamente emotivo costuma ficar aquém da racionalidade. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Sinto eu:&lt;/em&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A música é sempre um foco de emoções que não se conseguem verbalizar. A sua intensidade, por vezes, é tão devastadora que apenas consegue fazer-me sentir um nó na garganta, um sufoco algures em mim onde não consigo localizar com precisão. E há qualquer coisa que queima, por dentro, com uma urgência e uma imperatividade loucas, sôfregas e incontornáveis. Ao mesmo tempo que o coração dispara, batendo e batendo, a mente apenas consegue ter noção de que o corpo quase não consegue respirar; e o tempo – os segundos, os milésimos de segundos – passam com uma lentidão que acentua o receio do coração não aguentar e explodir. Fecho os olhos. Oiço a minha respiração, cada vez mais lenta, cada vez mais sonora, quase a recear o segundo seguinte. Sinto as vozes e há um arrepio que surge de dentro para fora de mim. Baixo os meus braços, estendo a palma das minhas mãos e sinto a ponta dos meus dedos tocando o ar. A música intensifica-se. Os sons crescem. As guitarras. As baterias. As vozes lânguidas, estranhas, melódicas. Os sons agúdos arrepiam-me. Os sons graves fazem-me sentir vontade de me deixar ir. É tudo tão profundo, tudo tão veloz. As emoções oscilam e rompem por dentro, atingem um cume e explodem – e eu não consigo alcançar o ar; não consigo perceber se os meus pés ainda estão sobre o solo de madeira; não consigo entender se o mundo que existe é aquele que eu vejo, ou aquele que eu sinto de olhos fechados, enquanto tudo em mim se liberta e progride. O mundo está no outro lado: e, aqui, há uma dimensão apenas feita de sentidos, de emoções, de quente e de quente, de abruptidão e de essência. E sinto vontade de chorar. Há um ácido que me queima o rosto, lentamente, percorrendo-o: são as lágrimas a quererem aparecer; é o sufoco na garganta; é a angústia e a ansiedade. E tudo, em mim, deixa de ter noção do resto. Ali: só eu. Ali: só a melodia. Ali: só as emoções. E somos um todo que resvala e que embate e que se distorce, para depois voltar a adquirir uma nova forma, dentro deste espaço. E estou em paz. Há uma calma serena que me tolda os sentidos e que me faz desejar nunca mais abrir os meus olhos. O mundo perfeito é aqui. Só pode ser este: aqui. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Penso eu:&lt;/em&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Às vezes, enquanto sinto tudo isto, assim tão derradeiro e devastador, penso: «Uma palavra. Uma palavra apenas para descrever tudo isto. Esforça-te, Laura. Uma palavra, pelo menos.» Há tanto tempo que comunicamos por palavras e sempre nos tem sido ensinado que podemos expressar as nossas emoções, mas não consigo encontrar uma só palavra, uma única que seja, capaz e exacta, para expressar as minhas emoções nestes instantes. Imenso, abrupto, derradeiro, veloz e total é tudo o que surge entre umas e outras tentativas de verbalização. Mas mesmo isto é só um tomar consciência de como incapazes podemos ser neste particular. E talvez por isso oiçamos música: para nos demitirmos, por instantes, das palavras; e apenas sermos uma massa de emoções. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Sinto eu:&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A essência de tudo está aqui, onde não consigo tocar – onde apenas sou e sinto.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11259111-114780231085579722?l=palavras-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-la.blogspot.com/feeds/114780231085579722/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=11259111&amp;postID=114780231085579722&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11259111/posts/default/114780231085579722'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11259111/posts/default/114780231085579722'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-la.blogspot.com/2006/05/msica.html' title='Música'/><author><name>Laura Azevedo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11510616410993579318</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_9FhbDhZ-vXE/TLCnpB1dobI/AAAAAAAAAKI/0AdgcZj74gU/S220/37142_467800013155_599438155_6562976_3216635_n.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11259111.post-114373006459475444</id><published>2006-03-30T15:45:00.000+01:00</published><updated>2011-10-18T01:22:37.616+01:00</updated><title type='text'>Simplesmente</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;«O meu peito inchou. O meu peito inchou, por dentro, até que o meu coração ficou feito numa bola inteira e imensa de calor. E, como se eu pudesse tocar os teus lábios com os meus, sentir o teu corpo perto do meu, encontrar o teu hálito aquecido a incidir na pele dos meus lábios e respirá-lo como se fosse meu, o teu corpo, que observo a uma distância suficiente para discernir a sua silhueta, aproxima-se lentamente e eu sinto o toque das tuas mãos nos meus braços, nas minhas ancas.&lt;br /&gt;A tua voz está aqui. E eu oiço as tuas palavras com o mesmo entusiasmo com que as partilhas comigo; e as coisas, que me contas, entre o anoitecer e o começo de um novo dia, parecem timbrar em mim um pedaço de ti que, depois, se mantém. Os teus dedos, que são tão longos quanto os meus, parecem ser ainda mais frágeis do que os meus e a palma da tua mão, que é tão grande quanto a minha, parece ser ainda mais ampla do que a minha.&lt;br /&gt;Estás aqui. E eu observo-te, entre uma palavra e outra, e fico-me a ouvir-te com um deslumbramento tão evidente que respiro fundo e exclamo para mim mesma como é tão bom que partilhes comigo aquilo que és, confiando nas pequenas palavras que eu te dou com o coração tão cheio, diminuindo as frestas que existem entre as almas que existem dentro dos corpos. Nunca pensei se teria alma, mas agora tenho a certeza que sim.&lt;br /&gt;Depois, fecho os meus olhos e não pronuncio uma só palavra. Apetece-me, tão simplesmente, sentir o calor do teu corpo sobreaquecendo o meu, ouvir a tua respiração próxima do meu ouvido, estender a minha mão e encontrar a tua, agarrá-la entre os meus dedos, sentir-lhe a pele, sentir-lhe os dedos longos entre os meus, e aproximar-me ainda mais de ti e ficar-me, assim, unida ao teu corpo, como se fosse possível não existirem limites para as emoções e como se pudéssemos alcançar um patamar ainda mais edílico do que aquele que alguma vez desejámos.&lt;br /&gt;Não ouves? Eu oiço. É uma melodia feita de uma tonalidade que envolve as paredes do meu coração, como se se alojasse dentro dele e lhe mostrasse os tons mais suaves, mais plenos, mais nobres. O que existe, entre esses tons, é um silêncio cúmplice do nosso silêncio: que se detém a olhar-nos e a contemplar os nossos dedos entrelaçados; e que nos toca com a ponta dos seus dedos, como se pretendesse purificar-nos ainda mais.&lt;br /&gt;Então, lá no alto, olhamos o mundo, sentimo-nos levitar, sentimos que o tempo é apenas mais um pedaço do que não tem importância alguma, observamos os vultos dos corpos que circulam pelas ruas e espreitamos sobre as colinas para vermos o sol por trás delas. Isto, continuamente deitados, continuamente entrelaçados, um no outro; continuamente debruçados sobre o corpo do outro, enquanto os nossos rostos se tocam com a leveza de quem procura o simples toque, com a inocência de quem procura sentir apenas a presença.&lt;br /&gt;De olhos fechados, depois de nos virarmos e de ficarmos à frente um do outro, em silêncio, como quem procura o outro no seu próprio reflexo, os teus lábios incidem sobre os meus e os nossos corpos aproximam-se até que ficam juntos, justos, encaixados nas formas do outro; e os nossos lábios encaixam-se, com uma delicadeza própria do reconhecimento, e os nossos corpos envolvem-se, um no outro, à medida que as línguas se tocam: à medida que as palavras curtas expressam a firmeza e a profundidade de um amor que se sente dentro dos lábios, na ponta da língua, no batimento acelerado do peito, na angústia que prende a respiração quando se imagina não poder voltar a entrelaçar os dedos, a ouvir as palavras...&lt;br /&gt;Eu envolvo-te com o meu corpo e tu envolves-me com o teu. Dentro desse nosso abraço, há um calor que é emanado, sem que o consigamos dimensionar: porque se alastra por tudo o que é meu, teu, nosso; e, de repente, quando percebemos, já não sabemos viver de outro modo: porque tudo o que existe, dentro da vida, para lá disto, parece-nos banal. Simplesmente. Aos dois.»&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Texto meu publicado no &lt;a href="http://dn.sapo.pt/dnjovem/capadnj.htm"&gt;suplemento Jovem&lt;/a&gt;, do Diário de Notícias, a 24 de Março de 2006. &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11259111-114373006459475444?l=palavras-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-la.blogspot.com/feeds/114373006459475444/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=11259111&amp;postID=114373006459475444&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11259111/posts/default/114373006459475444'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11259111/posts/default/114373006459475444'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-la.blogspot.com/2006/03/simplesmente.html' title='Simplesmente'/><author><name>Laura Azevedo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11510616410993579318</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_9FhbDhZ-vXE/TLCnpB1dobI/AAAAAAAAAKI/0AdgcZj74gU/S220/37142_467800013155_599438155_6562976_3216635_n.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11259111.post-114270834930035381</id><published>2006-03-18T18:57:00.000Z</published><updated>2011-10-18T01:22:37.611+01:00</updated><title type='text'>Miguel Bombarda</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Arrastava as pernas ao longo do corredor. Era um corredor comprido e estreito, vazio de pessoas, vazio de sons. As portas eram imensas e existiam num lado e no outro. Arrastava as pernas, ao longo do corredor, enquanto o cabelo lhe caía, desorganizado, sobre o rosto. O olhar era fixo, estranho, perturbador. O som dos pés arrastados sobre o chão. Cada passo era somente mais um passo. Detive-me, naquele instante, sem expressar uma só palavra: atenta, espectante, absorta. Estava absorta pela ausência de expressividade, pela vulnerabilidade daquele corpo que deambulava à minha frente, pelo olhar que era tão vago como cravado no meu. Debaixo das madeixas de cabelo, percebi que um sorriso tentava surgir, a medo, impávido, a lutar contra a apatia de um corpo que estava inerte sob o efeito de drogas. Eu respondi ao sorriso de uma forma incrédula e quase mecânica. Tudo me parecia inexistente, impossível. Mantive os meus pés no mesmo pedaço de chão, sem os mexer, durante largos instantes, até que as palavras, dentro da minha cabeça, ordenaram que o meu corpo reagisse. Senti, ali, que era urgente respirar; era urgente que o mundo, que existia fora daquelas paredes, continuasse dentro de mim para que eu pudesse simbolizar a força, a vida, o resultado de uma luta, o resultado de uma auto-estima que deveria ser, nele, incutida indirectamente. Mas o meu cérebro estava oco. O meu corpo parecia dormente, como o corpo dele também o estava. Segurava, nas minhas mãos, o casaco e a mala e os meus pés continuavam cerrados no chão. De corpo imóvel, via-o surgir daquele corredor, daquele espaço longo e vazio, daquele eco assustador que só faz o silêncio do desconhecido.&lt;br /&gt;Quando chegou ao pé de mim, sorria. Sorria com os olhos pendidos, com os lábios caídos, com a saliva caída sobre os lábios, com a inércia metida dentro do corpo e das palavras. A felicidade, em ver-me, era quase tão assustadora quanto seria a ausência dela: porque era demonstrada de uma forma quase maquiavélica, como são todas as formas que moldam as doenças e a incapacidade humana de lhes resistir. Dentro de mim, não sabia se sentia vontade de chorar ou de sorrir, de revelar palavras de afecto ou de esconder-me onde aquela realidade não pudesse tocar-me. Amparei-o pelo braço e não consegui dizer nada para lá de um cumprimento balbuciado. Os meus olhos caíam sobre o chão: o mesmo chão por onde ele arrastava os pés enquanto andava. Senti: era um mundo deprimente; tudo, ali, era tão deprimente como a própria ideia do escuro, do negro, da desistência, da crueldade, da demência. A demência: a surgir, sem contornos, sem noções exactas, como um véu envolto naquele nada. Caminhámos até ao jardim e descemos as escadas, suavemente, enquanto cada degrau descido ressaltava o meu medo de ele perder o equilíbrio, de tombar de fraqueza ou até mesmo de deixar-se cair, deixar-se levar pelo íngreme das próprias escadas. Chegámos ao banco e sentámo-nos. Olhei-o: muito parado; soluçando, descontroladamente; de olhos pendidos, vazios; de expressão inerte; com saliva seca nos cantos da boca; e o cabelo despenteado, sujo, a parecer ainda mais comprido do que quando ele ali tinha entrado. Dentro de mim, um misto de revolta com impotência. Não sabia mais se era amor. Era, pelo menos, amizade, compaixão, pena.&lt;br /&gt;As palavras fluíram com a lentidão que a dosagem lho permitira. Eu colocava perguntas e ele respondia. Com uma crueza imensa, como se não ponderasse nelas, ele dizia-as. Olhava a árvore à frente e os pombos que cruzavam aquele espaço, olhando apenas, de vez em quando, para mim. Eu fitava-o. Eu observava-o. Eu memorizava-o, com aquele ar doente, em mim. Era um jardim pequeno, com bancos de pedra, com relva muito curta. Outros doentes passeavam, por ali, num silêncio absoluto. «Aqui, as pessoas não falam» - dizia-me ele, com o mesmo olhar desprendido e absorto pelo infinito. Havia um homem sentado no final das escadas. Havia outro homem desenhando nadas na calçada: estava curvado sobre ela; fazia os movimentos do braço, como se desenhasse, como se escrevesse; mas nada tinha nas mãos para lá de uma pedra e nada existia, nesse chão, para lá de outras pedras. As minhas palavras eram, maioritariamente, palavras que formulavam perguntas, que tentavam perceber o que acontecia dentro da cabeça dele, que procuravam encontrar respostas para as questões sobre o tempo e a demora e o objectivo e o resultado. Uma mulher passou por nós e disse o nome dele. Perguntou quem eu era: se era mulher, se era amiga, se era filha. Continuo a andar, enquanto falava de óculos, enquanto dizia coisas que não entendi terem nexo, e, ao virar-se para trás, ao cruzar o meu olhar, retorquiu: «Eu não sou louca. Apenas estou aqui presa.» E continuou. E ele sorriu, sem expressividade, sem força para que os lábios se alargassem.&lt;br /&gt;Era, ali, naquele mundo, que ele, agora, estava. Naquele hospital com um grande portão. Um hospital quase escondido no meio de estradas pequenas e estreitas, sem carros, só com pessoas, só com alcatrão. À entrada do hospital, os doentes caminhavam de um lado para o outro: cada um com a sua deficiência; cada um com a sua singularidade. O guarda tinha-me ajudado a descobrir o caminho para a secção onde estava a pessoa que eu queria visitar: «É ali. Vê aquela porta com uma rampa? Entra e segue em frente. Quando sair do edifício, vira à esquerda, encontra uma esplanada e segue em frente. É aí.». Mas o caminho até lá parecera-me comprido demais. As pessoas olhavam-me e abordavam-me, ainda que em silêncio, com olhares inquiridores. Pediram-me dinheiro para comprar um café. Seguiram atrás de mim até que saí do edifício. Puxei do telemóvel e marquei o número da minha mãe. Precisava ocupar-me, distanciar-me daquele lugar, fingir que ainda não tinha ali entrado. Vi, perto da esplanada, um edifício e caminhei até ele. Subi as escadas e perguntei a um senhor se era ali: «Não. É daquele lado.» A imagem do senhor sem olho, a imagem do porteiro gago, a imagem dos homens que estavam à entrada do hospital, sem pernas, em cadeiras de rodas atropelavam-me os sentidos e, naquele instante, explodi: e chorei. Chorei enquanto dizia a mim mesma que não queria ir mais longe, enquanto dizia à minha mãe que não conseguia andar mais, enquanto uma tristeza tão grande, misturada com compaixão e medo e solidariedade, me afundavam o peito. Respirei fundo. Tentei respirar mais fundo. Procurei secar os olhos sem que ninguém os visse naquele estado: para que não percebessem que estava assim por causa deles; para que isso não os incomodasse. Até que encontrei outro edifício. Até que voltei a subir as escadas. Até que toquei à campaínha. Até que me abriram a porta. Até que perguntei por ele. Até que o chamaram.E, agora, ele estava ali e eu estava ali com ele. E tudo o que a vida envolve e abarca e detém me parecia irónico. «Aos 35 anos, estou, aqui, num hospital psiquiátrico» - dizia-me, com o mesmo olhar vazio que acompanhava todas as outras frases, com a mesma ausência de expressividade no rosto, com a mesma apatia, com a mesma dormência. Até que o meu peito estava já tão submerso em sentimentos e pensamentos torpes que não consegui estar ali muito mais tempo. E ele pediu-me para que eu me fosse embora: «Se vens por pena, prefiro que não voltes mais». Eu já não sabia pelo que estava ali. Eu já não sabia sequer o que sentia. Dentro de mim, estava tudo em turbilhão. A ausência, dentro de mim, era turbolenta. A imagem dele, assim, tão diferente de tudo o que tinha sempre visto nele. E, quando me fui embora, quando o acompanhei até ao quarto e saí, continuei sem saber o que tinha sentido, continuei sem perceber o que sentia. Atravessei os corredores do hospital ainda com mais rapidez com que os havia atravessado na chegada. Voltaram a pedir-me dinheiro para comprarem um café. Chamaram-me. O corredor parecia imenso. Era um corredor escuro. As salas à volta estavam vazias de gente e apenas tinham cadeiras, muitas cadeiras e escuridão. Atravessei o corredor, a porta com a rampa, o guarda, o portão grande e parei apenas no passeio da rua. O meu coração estava gelado. E ainda agora eu me pergunto se tudo terá, de facto, acontecido, existido.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Texto meu, publicado no Suplemento Jovem, do Diário de Notícias, no dia 24-02-2006.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11259111-114270834930035381?l=palavras-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-la.blogspot.com/feeds/114270834930035381/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=11259111&amp;postID=114270834930035381&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11259111/posts/default/114270834930035381'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11259111/posts/default/114270834930035381'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-la.blogspot.com/2006/03/miguel-bombarda.html' title='Miguel Bombarda'/><author><name>Laura Azevedo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11510616410993579318</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_9FhbDhZ-vXE/TLCnpB1dobI/AAAAAAAAAKI/0AdgcZj74gU/S220/37142_467800013155_599438155_6562976_3216635_n.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11259111.post-114269033037930478</id><published>2006-03-18T13:52:00.000Z</published><updated>2011-10-18T01:22:37.607+01:00</updated><title type='text'>A bola</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Por dentro. Por dentro, eu respiro. Por dentro, eu sinto a luz tingindo-me os meandros do que sou. Por dentro, eu sorrio. E o meu sorriso, todo por dentro, tem lábios grandes e redondos de carne - e brilham, cintilam, ficam ainda mais vivos. Os meus lábios luminosos e redondos são como a bola de fogo que existe dentro do meu peito. O fogo. O meu peito. Há momentos em que o peito, que se movimenta numa violenta tentativa de crescer, quase parece simplesmente parar - e congelar. A bola de fogo, que tenho dentro do peito, é redonda de mais, vermelha de mais, quente de mais - e, enquanto ela se deixa ser redonda e quente e vermelha, falta-meo ar. Depois, há alturas em que eu seguro essa bola nas minhas mãos, na pontinha frágil dos meus dedos. A bola. A bola, outrora dentro do meu peito, ou ainda dentro do meu peito, está nas minhas mãos. Também nas minhas mãos. A bola: o coração. O coração? E, quando a tenho toda nas minhas mãos, toda eu tremo, toda eu deixo de conseguir ter força nas minhas pernas para suportar o peso do meu corpo e quase morro. Com essa bola nas mãos. O coração. Quente, quente, quente. Vermelho, vermelho, vermelho. Redondo, redondo, redondo. De mais. De mais...&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11259111-114269033037930478?l=palavras-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-la.blogspot.com/feeds/114269033037930478/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=11259111&amp;postID=114269033037930478&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11259111/posts/default/114269033037930478'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11259111/posts/default/114269033037930478'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-la.blogspot.com/2006/03/bola.html' title='A bola'/><author><name>Laura Azevedo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11510616410993579318</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_9FhbDhZ-vXE/TLCnpB1dobI/AAAAAAAAAKI/0AdgcZj74gU/S220/37142_467800013155_599438155_6562976_3216635_n.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11259111.post-114203114505023555</id><published>2006-03-10T22:52:00.000Z</published><updated>2011-10-18T01:22:37.602+01:00</updated><title type='text'>A minha avó gostava tanto de ver-me</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;É um pouco do que acontece lá fora. Lá, onde as pessoas respiram melhor, onde as pessoas olham para nós com a curiosidade cheia de tacto e de atenção, onde as pessoas deixam passar os dias com mais velocidade do que nós. É um pouco do que acontece naqueles mundos que ninguém consegue conhecer, com qualquer precisão, porque existem feitos de imaginação e de afecto e de alegria. Às vezes, como se estivesse nesses mundos, como se nos olhasse apenas de fora, eu fico a olhar-nos como se estivesse à minha janela e pudesse assistir aos segundos correndo no chão de pedra dos passeios; e, enquanto nos olho da janela, enquanto a noite vai entrando pelas janelas com aquele ar frio e agreste, eu sinto vontade de não sair dali: da janela. É um pouco como os mundos que recreava em pequena, quando passeava pelos jardins imaginários de uma miúda de sete ou oito anos, quando me vestia com colares luminosos e saias curtas e dançava Madona para a minha avó ver, dentro daquela ingenuidade imensa que me permitia recrear mundos inteiros apenas e tão-somente à minha medida. Quero continuar na janela. Quero ver. Quando percebo, afinal, também quero escrever, também quero rir, também quero olhar melhor e mais de perto, também quero tocar com a ponta dos meus dedos tudo o que existe naquele espaço debaixo da minha janela. Quando percebo, também quero assistir mais de perto a tudo aquilo que tem vida dentro de mim e do mundo inteiro que existe todo à minha frente. Eu vestia-me de saia e dançava a Madonna nesses tempos, para a minha avó, sentada na minha cama, com os olhos raiados de orgulho na neta desinibida e elegre que tinha, ver-me. A minha avó via-me como se fosse toda a minha plateia e fazia tanto barulho quanto faria quase uma plateia inteira de dezenas de pessoas, com olhos esbugalhados, olhando para mim. É um pouco assim. Os segundos vão avançando e a vida passa à nossa frente. É um pouco assim. A vida passa à nossa frente e, às vezes, eu desinibo-me e, noutras, assisto apenas. É um pouco assim. E tudo o que brilha, tudo o que tem movimento e cheiro e cor e que sorri e que chora às gargalhadas, está, às vezes, no outro lado da janela. Eu gostava de dançar as músicas da Madonna. A minha avó gostava tanto de ver-me. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11259111-114203114505023555?l=palavras-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-la.blogspot.com/feeds/114203114505023555/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=11259111&amp;postID=114203114505023555&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11259111/posts/default/114203114505023555'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11259111/posts/default/114203114505023555'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-la.blogspot.com/2006/03/minha-av-gostava-tanto-de-ver-me.html' title='A minha avó gostava tanto de ver-me'/><author><name>Laura Azevedo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11510616410993579318</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_9FhbDhZ-vXE/TLCnpB1dobI/AAAAAAAAAKI/0AdgcZj74gU/S220/37142_467800013155_599438155_6562976_3216635_n.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11259111.post-114021152153091001</id><published>2006-02-17T21:25:00.000Z</published><updated>2011-10-18T01:22:37.598+01:00</updated><title type='text'>para lá</title><content type='html'>as minhas palavras.&lt;br /&gt;a ausência de um significado que compreendas.&lt;br /&gt;a mudez dos sons, flutuando.&lt;br /&gt;o eco da voz numa força imensa, gritando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;as minhas palavras escritas, aqui.&lt;br /&gt;as minhas palavras, como as tuas,&lt;br /&gt;no céu que queima de tanto azul, e, ali,&lt;br /&gt;as minhas mãos são já formas só nuas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o meu segredo feito de cores e sombras.&lt;br /&gt;a minha mudez e a noite escura de desalento.&lt;br /&gt;eu grito. eu grito, dentro, dentro, às escuras,&lt;br /&gt;para lá do que ainda entendo...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11259111-114021152153091001?l=palavras-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-la.blogspot.com/feeds/114021152153091001/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=11259111&amp;postID=114021152153091001&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11259111/posts/default/114021152153091001'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11259111/posts/default/114021152153091001'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-la.blogspot.com/2006/02/para-l.html' title='para lá'/><author><name>Laura Azevedo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11510616410993579318</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_9FhbDhZ-vXE/TLCnpB1dobI/AAAAAAAAAKI/0AdgcZj74gU/S220/37142_467800013155_599438155_6562976_3216635_n.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11259111.post-113727730092635569</id><published>2006-01-14T22:21:00.000Z</published><updated>2011-10-18T01:22:37.594+01:00</updated><title type='text'>Gosto / Não Gosto</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Sou chata. Sou calma. Sou explosiva. Sou observadora. Sou pensativa e analítica. Rio alto, vejo alto – sou alta. Já fui mais magra. Já tive mais paciência para a filosofia. Já escrevi mais. Já dancei mais. Já falei menos. Gosto de palavras, de vírgulas, de pontos e vírgulas, de acentos, de hífens, de travessões, de dois pontos. Gosto de pontuação. Gosto de ler: a mensagem dentro das palavras; as palavras, as figuras de estilo, as repetições. Gosto de dar alcunhas, de doces, de computadores, de conhecer mundos e submundos dentro das pessoas e do Mundo. Não gosto de sentir o corpo pegajoso com o creme da praia, nem da areia colada ao corpo. Gosto de dormir. Gosto de deitar tarde e acordar cedo. Gosto de ovos mexidos. Gosto de massas, de queijo fresco, de mel, de torradas quentes e de bifes com muito azeite. Não gosto de ir ao dentista. Não gosto de gatos. Gosto de cavalos, de cães, de papagaios. Gosto de escrever, de divagar. Já chorei mais. Já cantei mais. Não gosto de agulhas. Não gosto de estruturas dentro do mar: o fundo dos barcos, as hélices, a metade das bóias que não se vê, as cordas que não se vêem, os pontões – o desconhecido, as ilimitações, os fins que não posso prever. Gosto de cereais com passas, com pinhões, com amêndoas, banana e côco. Gosto de leite frio com chocolate: e gosto dos grãos de chocolate que não se dissolvem no leite frio. Já brinquei mais. Já tolerei mais. Já gostei menos do meu nome. Não gosto de corredores longos e escuros. Gosto de dormir com as persianas levantadas. Gosto de janelas amplas, de muita luz. Gosto de incenso. Gosto de velas. Gosto de banhos de imersão quando estou cansada, ou deprimida, ou quando estou bem acompanhada. Gosto de conversas inteligentes. Gosto de música cubana, de Mogwai, de guitarras, de baterias e de vozes. Não gosto de saltos muito altos. Gosto de palavras terminadas em mente. Gosto dos meus olhos azuis. Não gosto da minha insegurança. Gosto das minhas mãos. Gosto de pastilhas de canela. Gosto de Sting. Gosto de pastéis de nata quentes. Gosto de canetas. Não gosto de escrever à mão. Gosto de blusas de gola alta. Gosto de brincos compridos. Gosto de tomar banho em água muito quente. Gosto de jogar ténnis, de pessoas frontais, de emoções fortes. Gosto de lutar por aquilo em que acredito. Gosto do campo. Gosto de azul. Gosto de tecnologias. Gosto que me contem histórias. Gosto de estudar na cama. Gosto de ir ao cinema. Gosto de sabão líquido. Gosto de cheirar bem. Gosto que cheirem bem. Não gosto do cheiro a suor. Gosto que me contem a verdade. Não gosto de fugir. Gosto que confiem em mim. Gosto de jogar às cartas. Não gosto de agressão. Não gosto da linguagem dos kkk. Gosto que se lembrem de mim. Gosto de estar bem disposta. Gosto que lutem por mim. Gosto de pouco nestum em muito leite. Não gosto de maremotos. Não gosto dos pesadelos que habitualmente tenho. Gosto que me mimem. Gosto de rir. Gosto de abraços. Gosto de poder confiar em. Não gosto de luta livre. Gosto de massa de tarte. Gosto de piscinas. Gosto de dança contemporânea. Gostava de ter sido bailarina, ou actriz. Não gosto de abelhas. Gosto de ciência, de medicina. Gosto de nus. Gosto de desenhar com carvão. Às vezes, sim, sou chata. E tu não?&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11259111-113727730092635569?l=palavras-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-la.blogspot.com/feeds/113727730092635569/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=11259111&amp;postID=113727730092635569&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11259111/posts/default/113727730092635569'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11259111/posts/default/113727730092635569'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-la.blogspot.com/2006/01/gosto-no-gosto.html' title='Gosto / Não Gosto'/><author><name>Laura Azevedo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11510616410993579318</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_9FhbDhZ-vXE/TLCnpB1dobI/AAAAAAAAAKI/0AdgcZj74gU/S220/37142_467800013155_599438155_6562976_3216635_n.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11259111.post-113235411080774586</id><published>2005-11-18T22:48:00.000Z</published><updated>2011-10-18T01:22:37.590+01:00</updated><title type='text'>Ela, Eu...</title><content type='html'>Deitei-me sobre a cama. Era a mesma cama de antes - de quando eu tinha dezassete anos, de quando eu tinha dez anos - e as luzes, que a tornavam ainda mais nocturna do que habitual, pareciam ser amareladas, pareciam tingir as paredes de uma tonalidade que era já espessa, como se viesse de fora, da rua, uma nuvem de poluição que se entranhava pelas poros do cimento e da cal. Era o mesmo quarto, com as mesmas molduras fixadas nas paredes, com a mesma mesinha enquadrada no canto, com as mesmas parteleiras cheias de livros que divagavam os mais diversos temas com um mistério e um deslumbramento agridoces. Deitei-me sobre a cama e fiquei a olhar as paredes e os papéis guardados nas caixas de cartão que eu desenhara e pintara com os meus próprios dedos. E havia, ali, também um caderno, um caderno grande, com umas bolas vermelhas recortadas de um papel qualquer autocolante, uns riscos desenhados sob um impulso, um forro acastanhado de papel reciclado. E, por dentro, as minhas palavras escritas com as canetas de várias cores; os recortes de jornais riscados a cor viva; os poemas que eu escrevia em computador e imprimia, recortava e, depois, colava nas folhas de linhas com setas que desvendavam os comentários que eu mesma fazia às palavras dos meus próprios poemas, com medo que, um dia mais tarde, quando viesse a ser grande, muito maior, pudesse esquecer por que as tinha escrito naquela altura. O caderno, sempre pintado, sempre recortado, que era retalhado e cronológico como os dias, como as várias fases pelas quais fui passando na vida, como as próprias emoções que se alteravam e sempre se alteram consoante o contexto em que nos encontramos. Eu sentei-me na cama e fiquei a olhar a parede, os livros na estante, o caderno retalhado, as caixas de cartão e pensei, para mim, que estava a regressar à origem de tudo aquilo que eu era naquela altura. E fiquei assim durante alguns minutos. Fiquei assim durante algum tempo: Sem saber muito bem se eu ainda seria aquela rapariga. Sem saber exactamente o que restava dela dentro de mim. E sem saber especialmente o que sentia ao revê-la, ali, assim, naquele momento, daquela maneira, olhando tão minuciosamente para o que estava dentro dela, para o que ainda existia dentro de mim...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11259111-113235411080774586?l=palavras-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-la.blogspot.com/feeds/113235411080774586/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=11259111&amp;postID=113235411080774586&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11259111/posts/default/113235411080774586'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11259111/posts/default/113235411080774586'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-la.blogspot.com/2005/11/ela-eu.html' title='Ela, Eu...'/><author><name>Laura Azevedo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11510616410993579318</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_9FhbDhZ-vXE/TLCnpB1dobI/AAAAAAAAAKI/0AdgcZj74gU/S220/37142_467800013155_599438155_6562976_3216635_n.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11259111.post-113217077372461853</id><published>2005-11-16T19:52:00.000Z</published><updated>2011-10-18T01:22:37.586+01:00</updated><title type='text'>Vazio</title><content type='html'>&lt;p class="mobile-post"&gt;Há ecos nestes corredores. Os passos dos outros ouvem-se cada&lt;br /&gt;vez mais baixos, mais silenciosos. Sei que está escuro no outro&lt;br /&gt;lado da janela porque é já de noite. As ruas, perto daqui, são&lt;br /&gt;estreitas e os homens - muitos, escuros, sujos, de boca sedenta,&lt;br /&gt;de mãos trémulas e unhas escurecidas na raiz dos dedos -&lt;br /&gt;aguardam o passar lento das horas naqueles bancos daquele jardim.&lt;br /&gt;A imagem daqui nunca varia demasiado.&lt;br /&gt;Já sei quem ali está. Conheço - quase - os rostos. Quando passo,&lt;br /&gt;cerrando os pés apressados na calçada de Lisboa, sinto-lhes o hálito&lt;br /&gt;a bebida, a demência de corpos quedados numa rotina mórbida&lt;br /&gt;nocturna, sem afectividade, sem acalmia para lá da dormência da&lt;br /&gt;bebida.&lt;br /&gt;Recordo, enquanto me encontro aqui sentada, outras ruas por&lt;br /&gt;onde vou passando, em Lisboa, que não conhecia antes, que não&lt;br /&gt;me trazem recordações. As recordações são-me tão escassas, aqui,&lt;br /&gt;que só agora as vou cultivando, que só agora as vou associando aos&lt;br /&gt;espaços que cruzo pela terceira ou quarta vezes. É Lisboa. E são&lt;br /&gt;ruas, sim. E eu vivo aqui. Mas os traços das ruas, dos prédios, o&lt;br /&gt;cheiro dos cruzamentos, dos caixotes do lixo, a luz dos espaços&lt;br /&gt;amplos, a frieza dos edifícios de pedra ainda me são apenas tijolos,&lt;br /&gt;apenas cores, apenas distância e linhas rectas, como numa maquete&lt;br /&gt;de esferovite, sem emoções, sem sentimentos. E eu recordo espaços,&lt;br /&gt;lugares, e procuro deter, em mim, o que fica dentro desses espaços,&lt;br /&gt;desses lugares - o que fica, neles, enfim, dentro de mim.&lt;br /&gt;É de noite. Eu sei. E são de horas nem sei bem de quê. Por algum&lt;br /&gt;motivo, sinto-me saudosa e nostálgica. Por algum motivo, vim aqui.&lt;br /&gt;Mas o que fica nos espaços vazios que tento preencher? Um vazio&lt;br /&gt;maior. Não é tristeza, nem desalento. É apenas vazio. E tudo me&lt;br /&gt;parece demasiadamente grande para que eu o consiga atingir com a&lt;br /&gt;ponta dos meus dedos, com os meus calcanhares torpes esticados&lt;br /&gt;com sofreguidão para que eu consiga avistar ao longe, com os meus&lt;br /&gt;olhos abertos de curiosidade.&lt;br /&gt;Quem és tu que me lês? E porque me lês? Tudo isto continua vazio.&lt;br /&gt;Esperavas outra coisa?&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11259111-113217077372461853?l=palavras-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-la.blogspot.com/feeds/113217077372461853/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=11259111&amp;postID=113217077372461853&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11259111/posts/default/113217077372461853'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11259111/posts/default/113217077372461853'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-la.blogspot.com/2005/11/vazio_16.html' title='Vazio'/><author><name>Laura Azevedo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11510616410993579318</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_9FhbDhZ-vXE/TLCnpB1dobI/AAAAAAAAAKI/0AdgcZj74gU/S220/37142_467800013155_599438155_6562976_3216635_n.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11259111.post-113070531886271199</id><published>2005-10-30T20:47:00.000Z</published><updated>2011-10-18T01:22:37.582+01:00</updated><title type='text'>de comoção</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Um pouco acima de mim, onde a luz existe sob o céu imenso, onde há brilho e cor por cima de tudo e entre tudo. Um pouco acima dos meus pés, onde as minhas mãos se deixam estar, onde as minhas pernas afirmam o corpo estagnado, onde os meus cabelos se alongam.&lt;br /&gt;Um pouco dentro de mim, onde apenas existem formas que não consigo sequer dimensionar, onde existe calor e humidade, onde existem tecidos distintos e com vida própria. Um pouco dentro de mim, onde se aquece o peito, onde as palavras escoam, onde a garganta seca no ímpeto da incredulidade e do conforto.&lt;br /&gt;Um pouco dentro de mim, sem que eu possa equacionar, sem que eu sequer consiga evitar, como se toda eu fosse muito espaço e tivesse, dentro de mim, um horizonte inteiro cheio de formas e de cores quentes. Um pouco dentro de mim, sem que eu consiga quase respirar, enquanto tudo à volta persiste, enquanto tudo à volta me queima com a sua intensidade.&lt;br /&gt;Dentro de mim, enquanto respiro - e enquanto respiro outra, outra e outra vez -, há uma aragem de calor que me invade o corpo, há uma aragem de calor que me obriga a cerrar os olhos, há uma aragem de calor que me faz sentir coragem, esperança e vida. E não sei mais se choro ou se me rio:&lt;br /&gt;de comoção.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11259111-113070531886271199?l=palavras-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-la.blogspot.com/feeds/113070531886271199/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=11259111&amp;postID=113070531886271199&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11259111/posts/default/113070531886271199'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11259111/posts/default/113070531886271199'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-la.blogspot.com/2005/10/de-comoo.html' title='de comoção'/><author><name>Laura Azevedo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11510616410993579318</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_9FhbDhZ-vXE/TLCnpB1dobI/AAAAAAAAAKI/0AdgcZj74gU/S220/37142_467800013155_599438155_6562976_3216635_n.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11259111.post-112743518043083144</id><published>2005-09-23T01:22:00.000+01:00</published><updated>2011-10-18T01:22:37.577+01:00</updated><title type='text'>Inês e um piano</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Os seus dedos longos, muito magros e brancos, galopando pelas teclas de um piano. Os olhos baixados, em direcção a elas, quase fechados. Os olhos que a agarram com uma sofreguidão feita de deslumbramento e inveja. Os cabelos caem-lhe sobre os ombros que o vestido desnuda e um decote quadrado, simples, torna-lhe o peito ainda mais feminino, ainda mais discretamente belo. Os lábios entoam as palavras. A sala escura à sua volta. A luz incidindo tão-simplesmente sobre a sua silhueta, a sua imagem iluminada no fundo negro, no mistério de tudo o que existe em redor e não se vê. Tem os olhos, sim, sempre fechados e os lábios movimentam-se, os lábios torneiam as palavras que vão criando e recriando mundos e sentimentos que apenas podemos imaginar. Toda a pele brilha – toda a pele do rosto, toda a pele dos lábios, toda a pele que existe debaixo da própria pele e que apenas se pressente, toda a pele que reveste tudo o que a mantém – e brilha de um modo sensual, quase casual. Tem a voz um pouco rouca, tem a voz um pouco áspera, mas a voz, que é feminina, que é frágil, que é doce, parece existir por debaixo dela.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Os meus olhos prostrados nos movimentos de quem existe com ternura e de quem flutua. Há quem flutue por dentro. Os meus pensamentos que tão-simplesmente a conseguem circundar, que tão-somente a conseguem adornar com deslumbramento e magnetismo. E, de repente, eu fecho os meus olhos e oiço-a apenas. E tudo o que oiço consegue afundar-se dentro de mim, estremecendo-me. E fico-me porque todo o meu corpo a sente e porque tudo em mim a necessita.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Nunca nos olha. Nunca nos transmite saber que estamos ali, que a observamos, que o seu rosto é o centro dos nossos olhos, que as suas mãos são as nossas próprias mãos. Nunca ergue o rosto para olhar em frente. A frente não existe. Os lados não existem. O redor, o atrás, não existem. Nada mais existe senão aquele fundo, aquela desordem, aquela serenidade de quem se deixa a si mesma e se dá. Apenas a melodia a ecoar e a sala tão imensa a continuar a ser inexistente: porque a única pessoa que, ali, interessa é ela: ela e as suas mãos, longas, magras e brancas; ela e os seus cabelos longos caídos sobre os ombros magros, desnudados pelo vestido comprido; ela e os seus lábios voluptuosos, húmidos das palavras, húmidos da própria pele, a dançarem longamente; ela e as palavras que criam e recriam e criam e recriam mundos, que criam e recriam e criam e recriam sentimentos, que criam e recriam e criam e recriam emoções que nos assolam a todos, ali, dentro daquela escuridão que não nos incomoda.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E o que eu sinto tem a dimensão do que não se explica e a beleza do que apenas comove e, ao mesmo tempo que agonia, também liberta. Eu a ouvi-la e a sentir o peito quente, cheio, balofo. E ela sem me ver. E eu a senti-la. E todos nós a sentirmo-nos, uns aos outros, naquele anonimato que apenas tinha o seu próprio nome: Inês.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11259111-112743518043083144?l=palavras-la.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-la.blogspot.com/feeds/112743518043083144/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=11259111&amp;postID=112743518043083144&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11259111/posts/default/112743518043083144'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11259111/posts/default/112743518043083144'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-la.blogspot.com/2005/09/ins-e-um-piano.html' title='Inês e um piano'/><author><name>Laura Azevedo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11510616410993579318</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_9FhbDhZ-vXE/TLCnpB1dobI/AAAAAAAAAKI/0AdgcZj74gU/S220/37142_467800013155_599438155_6562976_3216635_n.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry></feed>
