Quando era pequena – assim, por volta dos meus seis ou sete anos –, o meu pai costumava ir buscar-me à escola primária – assim, pela hora do almoço – e, umas vezes, íamos por longos minutos a um café com esplanada, situado no centro da Sé, e que se chamava “O Seu Café”. Mas, noutras alturas, em que não íamos por longos minutos à esplanada d’”O Seu Café”, passávamos pela casa dos meus avós paternos que ficava mesmo a meio do caminho, entre a minha escola e a nossa casa. A casa dos meus avós paternos era simples, humilde, e era térrea, ficando numa rua estreita, mas muito longa, que vinha lá desde a entrada de Faro até ao início da calçada de pedra, junto à Rua do Crime. A porta tinha um pêndulo pesado que, agarrando-o e puxando-o um pouco para cima, deixavamo-lo pender contra a porta para soar um som de campainha. Na entrada, ao meu lado esquerdo, havia uma planta verde dentro de um vaso grande, prostrado no chão, e à frente, no fundo da sala, no outro lado, havia uma estante com a televisão e um arco de pedra que dava passagem para a casa de jantar.
O meu avô, que sempre tinha trabalhado ali perto, na mesma rua, estava agora aposentado e, quando eu lá chegava com o meu pai, constantemente o encontrava sentado num sofá individual que ficava encostado a uma das paredes da sala, em frente ao arco de pedra e virado para a televisão. O meu avô era alto, como o meu pai, mas não tanto, e usava óculos para ver ao perto e ao longe, penso eu. Não tinha cabelo. De pouco mais me lembro do meu avô paterno, para além de que me tratava sempre pelo meu diminutivo. O avô Hernâni. A minha avó, que era muito baixa, magríssima, com nariz grande da velhice, cabelo escuro amarrado num carrapito no alto da cabeça, e óculos ovais pendidos na ponta do nariz, andava numas passadas pequenas, mas muito velozes, incapaz de ficar quieta no mesmo sítio por muito tempo. Era, como muitas avós, religiosa, mas ficou muito mais religiosa ainda depois de o meu avô morrer. A avó Júlia.
Os meus avós paternos não eram, nem nunca foram, propriamente afectuosos. Não faziam festas no meu cabelo, nem me contavam histórias para crianças, nem me coçavam as costas ao adormecer como fazia a minha avó Lurdes – a materna. Mas gostavam muito de mim. E, quando eu os visitava naquelas tardes após as aulas, – e lembro-me tão bem desta imagem – a minha avó Júlia caminhava, nas suas passadas pequenas, mas muito velozes, através do arco de pedra, aproximava-se do armário da sala, onde estava a televisão que o meu avô via, e tirava de dentro do armário uma taça grande de vidro, tapada por um papel de alumínio ou, talvez mais correctamente, por um pano apenas. Sem dizer quase nada, os meus olhos iluminavam-se a olhar a taça grande de vidro e, com uma colher grande, a minha avó oferecia-me uma bola de doce de figo, sentada sobre a colher, para eu devorar como se não houvesse mais nada no mundo. E, às vezes, levava comigo uma taça também, pois a minha avó sabia que eu adorava o doce de figo que ela fazia.
O meu avô morreu alguns anos mais tarde. Não muitos. Não me lembro, ao certo, quantos. Estiveram casados uma vida inteira: o meu avô Hernâni e a minha avó Júlia. Foi a primeira morte da minha família. Durante anos, achei que a tinha pressentido. Durante anos, lembrava-me de um vulto claro que passava por trás do roupeiro do meu quarto, como se ficasse encostado a ele, de rosto amparado pela madeira, a olhar para mim. Um vulto que desapareceu, após a sua morte. Mas nunca falei disso com ninguém. Eu era uma miúda de seis ou sete anos. E senti culpa por não chorar. A morte foi-me uma coisa estranha. Foi como se não tivesse existido. Existiu – eu sei –, mas foi como se não tivesse existido. Durante meses, senti que o espírito do meu avô me acompanhava. A voz dele, a chamar-me pelo meu diminutivo, e a imagem dele sentada no sofá em frente à televisão: acompanhavam-me. Sentia que ele estaria ali, agora, sem que eu o pudesse ver, mas presente, a ver tudo o que eu fazia. A minha avó morreu mais tarde. Uns anos mais tarde. Eu já não era miúda, mas adolescente. A morte continuou a ser uma coisa estranha, para mim. Vi o meu pai chorar, sendo a primeira vez que o via assim: a chorar. Mas eu continuei sem chorar e continuei a culpar-me por isso: que neta era eu que não chorava a morte, a perda?
Apesar do doce de figo e da imagem engraçada dos meus dois avós paternos, nunca fomos muito próximos. Não havia abraços, brincadeiras, calor humano. Havia um doce de figo para uma menina de seis ou sete anos. Passei a gostar do doce de figo e, sempre que posso, como-o onde posso, onde sei que ele há, onde o vou encontrando. Mas tenho de partilhar uma coisa: Sinto saudades de comer o doce de figo da minha avó Júlia.
2 comentários:
Adorei.
Tinha saudades de te ler... assim.
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